contribuição ao debate :a fabrica de miseráveis que aos 16 anos elegerão
oPresidente da Republica ou inflarão as estatisticas criminais :
DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO, JÁ !!!

após breve pausa, de volta para a cerveja e à "meditação" em Floripa ( BOM
CARNAVAL A TODOS !!! )

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A multiplicação da pobreza (Revista Veja - 9/6/2004)

Nos bolsões de miséria do Brasil, o número de filhos por mulher se iguala ao
dos mais pobres países africanos


NESTA REPORTAGEM
Gráfico: Queda menor no Norte e Nordeste
Gráfico: Na Europa faltam bebês

EXCLUSIVO ON-LINE
Taxas de crescimento de outros países


Para definir a taxa de fecundidade "ideal", que aponta para a estabilização
do crescimento populacional de um país, demógrafos partiram de um
pressuposto simples: o de que crianças são geradas por duas pessoas que, um
dia, irão morrer e deverão, portanto, ser substituídas por outras duas. A
chamada "taxa de reposição" é, por esse motivo, de 2,1 filhos por mulher. O
Brasil já teve uma média quase três vezes superior a essa. Hoje, as famílias
têm, em média, 2,3 crianças – índice bem próximo do necessário para o
equilíbrio populacional. Estaria tudo muito bem não fosse o fato de que essa
aparente normalidade escamoteia uma realidade preocupante: a de que
persistem no mapa brasileiro regiões onde as mulheres têm um bebê por ano e
chegam ao fim de sua vida fértil com mais de vinte filhos, reproduzindo um
quadro semelhante ao exibido por países tão miseráveis quanto Somália e
Uganda, na África. Mais grave que isso: diferentemente do que ocorria até
pouco tempo atrás, esses bolsões de descontrole populacional não se situam
apenas em rincões, mas nos grandes centros urbanos também – as favelas se
tornaram ilhas de explosão demográfica dentro das metrópoles.

Um dado extraído do Censo do IBGE indica que, na última década, a população
de favelas aumentou num ritmo quase três vezes superior à média brasileira.
As maiores expansões ocorreram nas cidades de São Paulo, Belém e Rio de
Janeiro. Nesta última, enquanto a população cresceu a uma taxa de 0,74% ao
ano na década passada, o número de habitantes de favelas aumentou a um ritmo
de 2,4%, segundo pesquisa feita pela Escola Nacional de Ciências
Estatísticas do IBGE, em conjunto com o Instituto Pereira Passos. Ao
decomporem os fatores responsáveis pelo crescimento populacional nesses
bolsões, os pesquisadores concluíram que a razão principal (com peso de 35%)
foi o aumento da fecundidade, seguido pela imigração (com peso de 17%). Há
outros elementos que, isoladamente, tiveram influência menor, como o aumento
da expectativa de vida e a chegada de pessoas empobrecidas da própria
cidade. Uma projeção feita pela Fundação Getúlio Vargas indica que a
população favelada brasileira irá mais do que dobrar nos próximos dez anos:
poderá chegar a 13,5 milhões de pessoas caso o ritmo de crescimento
populacional nessas áreas permaneça estável.


As favelas encravadas em centros urbanos não compartilham o isolamento dos
minúsculos municípios rurais, mas se assemelham a eles em outro aspecto: os
baixos índices de educação formal. Segundo pesquisa do Centro de Políticas
Sociais da Fundação Getúlio Vargas, os habitantes das favelas do Rio de
Janeiro, as mais populosas do Brasil, estudam, em média, 4,5 anos – pouco
mais da metade do tempo que permanece na escola a média dos moradores da
cidade. Além da pouca escolaridade, há outras razões que explicam as altas
taxas de fecundidade nesses locais. Em meados da década de 80, técnicos do
Banco Mundial desembarcaram na favela da Rocinha, a maior do Rio, com o
objetivo de desenvolver um programa de planejamento familiar. Os resultados
foram insatisfatórios. Ao retornarem ao local para entender os motivos do
fracasso da iniciativa, concluíram que ele se deveu, em grande parte, ao
peso que certos aspectos culturais tinham sobre a gravidez. As mulheres
declaravam que tinham filhos porque com isso ganhavam "status e respeito" na
vizinhança, além de conquistar "independência dos pais". Já os homens diziam
que se sentiam "mais viris" com a paternidade.

Há muito se sabe que é um equívoco creditar ao simples aumento da
fecundidade o crescimento da pobreza e da desigualdade. Fosse assim, o
contrário também deveria ser verdadeiro: o fato de o Brasil ter atingido uma
média geral de nascimentos quase idêntica à dos Estados Unidos (2,0 filhos
por mulher) levaria por si só a que, num futuro próximo, sua economia se
tornasse tão reluzente quanto a de um país desenvolvido. Os números
comprovam, porém, que existe um vínculo estreito entre o crescimento
populacional e o desenvolvimento de uma economia. As mais pobres regiões
brasileiras são as que têm as mais altas taxas de fecundidade. Nas mais
ricas, é o oposto. A cidade com o menor índice de fecundidade do Brasil, São
Caetano do Sul (SP), é a que apresenta a segunda maior renda per capita do
país. O mesmo ocorre no âmbito das famílias: em lares onde a renda per
capita não supera um quarto de salário mínimo, há em média cinco filhos,
segundo o IBGE. Quando essa renda ultrapassa cinco salários mínimos,
predomina o filho único. O alto número de filhos seria a razão da pobreza ou
sua conseqüência? As duas coisas, respondem especialistas. Com muitos
filhos, uma família com renda já escassa fica com o orçamento ainda mais
espremido. As crianças são forçadas a largar os estudos para trabalhar e,
assim, diminuem suas chances de superar a condição de pobreza. Sabe-se
também que mulheres que não tiveram acesso ao estudo têm até três vezes mais
filhos do que as que cursaram a universidade. "As altas taxas de fecundidade
funcionam como uma espécie de combustível que faz girar um ciclo perverso de
miséria", observa o economista Marcelo Neri, da FGV.

Carlos Goldgrub

Espanha: muitos idosos, poucos bebês


O processo de urbanização foi um dos fatores que contribuíram para refrear o
aumento populacional no Brasil. Ao trocarem o campo pela cidade, as pessoas
passaram a ter acesso a serviços públicos como saúde e educação. A
universalização da previdência também influenciou na redução dos
nascimentos, sobretudo porque fez arrefecer a crença, até hoje persistente
em áreas rurais, de que a única fonte de renda na velhice viria do trabalho
dos filhos – o benefício fez diminuir o temor dos brasileiros de chegar à
velhice sem nenhum tostão. Um estudo feito na década de 70 chegou à curiosa
conclusão de que as telenovelas foram outro fator a ajudar no encolhimento
dos lares. "Como a maioria delas exibia famílias de dois filhos, o padrão
acabou influenciando os casais", diz a demógrafa Elza Berquó, do *Núcleo de
Estudos da População da Unicamp,* que participou da pesquisa na época.

A história das políticas de planejamento familiar é cheia de idas e vindas.
Embora a distribuição de preservativos pelos hospitais públicos tenha
começado nos anos 70, foi só a partir de 1996, por força de lei, que
camisinhas e anticoncepcionais começaram a chegar sistematicamente às
regiões mais pobres e distantes das grandes cidades. Agora, o governo
federal está preparando um pacote de medidas, a ser anunciado ainda neste
mês, que promete aumentar a opção de anticoncepcionais ofertados pelo Estado
e dobrar o número de hospitais públicos que fazem esterilizações, hoje
disponíveis em menos de 10% dos municípios brasileiros. A interferência
governamental exige precisão cirúrgica para que não cause danos difíceis de
reverter. O Brasil já exibe uma queda consistente nas taxas de crescimento
populacional. Uma ação generalizada poderia acelerar perigosamente essa
tendência. Demógrafos afirmam que é muito mais fácil diminuir a taxa de
fecundidade do que aumentá-la.

Há anos a Europa assiste à diminuição de sua população. A situação é
particularmente grave em países como Itália, Espanha, Alemanha e Suíça,
todos com crescimento populacional próximo de zero. Diante da perspectiva de
diminuir, esses países passaram a implantar programas de estímulo à
natalidade, que incluem de abatimento no imposto de renda a licença
remunerada de até um ano para os candidatos a pais. Na Itália, que junto com
a Espanha tem a menor taxa de natalidade da Europa (1,2 filho por casal), o
problema ganhou proporções tão dramáticas que a Igreja resolveu interferir:
"Italianos, façam filhos", foi o slogan da campanha lançada há dois anos.
Nem o incentivo da Igreja Católica nem as benesses oferecidas pelo governo
estão dando resultados. Projeções indicam que tanto a Itália quanto a Suíça
estão prestes a ter crescimento populacional negativo. Ou seja, encolherão
de fato. Assim como a Alemanha, a Itália já afrouxou as exigências para a
entrada de imigrantes dispostos a trabalhar – a única maneira de manter a
economia funcionando nos níveis atuais.

No Brasil, embora o crescimento populacional continue caindo, as regiões
pobres e, sobretudo, as favelas vêem agravar-se fenômenos que apontam na
direção contrária, como o aumento da gravidez na adolescência, por exemplo.
O último censo mostrou que mulheres de baixa renda estão tendo filhos cada
vez mais cedo. Nos últimos dez anos, aumentou em 42% o número de mães pobres
na faixa de 15 a 19 anos. "A ação do governo tem de ser precisa e baseada em
estudos que ataquem problemas localizados como esse", diz o demógrafo Paulo
Murad Saad, da Divisão de Populações da Organização das Nações Unidas. Ou
seja, regiões com diferentes níveis de instrução e riqueza têm de ser alvo
de políticas específicas.

"Muitos filhos ajuda no trabalho"


Edimar Farias/Imapress

Mercedes (em pé), com doze dos dezessete filhos

O município de Bagre, a catorze horas de barco de Belém, no Pará, orgulha-se
de ser a terceira cidade brasileira com a maior média de nascimento de
filhos por mulher (7,3), perdendo apenas para Tartarugalzinho e Pracuuba,
ambas no Amapá. Segundo o IBGE, 39% das 2 521 mães do município têm mais de
seis filhos. Há três anos, a prefeitura organizou um concurso para eleger a
dona da maior prole da cidade. As finalistas foram uma mulher de 45 anos e
outra de 38, cada uma com 22 filhos. O atual prefeito de Bagre, Pedro Santa
Maria, tem explicação singela para a excepcional fertilidade da cidade:
"Menos de 30% das residências daqui têm televisão", diz. "Isso faz do sexo
umas das principais opções de lazer da nossa população." Há, sem dúvida,
outras razões.

Bagre tem renda per capita anual de 20 dólares (a média nacional é de 2 800
dólares) e metade da população ganha menos de 25% do salário mínimo. Mais de
um terço dos seus 8 792 habitantes em idade escolar nunca entrou numa sala
de aula e outros 40% não estudaram mais que três anos. À miséria e à baixa
escolaridade soma-se o fato de que só recentemente a cidade ouviu falar em
planejamento familiar. "O governo começou a distribuir pílulas e
preservativos apenas em 2001", diz o secretário de Saúde municipal,
Carmelino Nunes. A iniciativa, ao que parece, deu poucos resultados até
agora. Apenas 32 casais, 25 homens solteiros e 29 mulheres vão ao posto de
saúde regularmente retirar preservativos e só 39 mulheres comparecem ao
local em busca de pílulas. "É quase nada, mas é muito quando se sabe que
estamos em um lugar em que os homens não admitem usar camisinha e, muitas
vezes, proíbem às mulheres que se consultem com ginecologistas", afirma o
secretário Nunes.

Como ocorre em boa parte das regiões mais pobres do Brasil, com economia
baseada no extrativismo e na agricultura familiar, muitos casais desejam
famílias grandes baseados na crença de que cada filho é um par de braços a
mais para trabalhar na lavoura. "O bom de ter muitos filhos é ter mais gente
para ajudar no trabalho quando precisa", diz Mercedes dos Santos, 41 anos,
dezessete filhos e uma única fonte de renda fixa: os 95 reais do programa do
governo federal Bolsa Família.

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