Caro Amigo e Prof. Tangerino,
Com alegria e satisfação vejo seu empenho e dedicação nesse momento crítico em que vive a sociedade brasileira. A história tem nos ensinado que é nesses momentos que muitas vezes se encontram soluções para os nossos problemas, ou melhor até mudanças de pensamentos e comportamentos. Esta, na verdade, é a oportunidade de reflexão e até autocrítica.
Os desafios estão aí. O mundo tem-se que preparar para alimentar sua população de cerca de 9 bilhões de habitantes em 2050. Segundo as instituições das Nações Unidas a maioria desse suprimento virá da agricultura irrigada, principalmente das Américas, de onde deverá vir a contribuição do Brasil em cerca de 3/4. Isto implica em pelo menos dobrarmos nossa superficie irrigada. Como fazer isso em menos de 35 anos? Levamos quase 30 anos para irrigarmos desde 1986 cerca de 4,5 milhões de hectares, que acrescidos ao 1,5 milhão que existia à época, somam hoje cerca de 6 milhões de hectares. É por aqui que temos que fazer nossa autocrítica.

Em 1979 quando foi instituída a Política Nacional de Irrigação, passaram cinco anos para sua regulamentação. Perguntei certa vez a uma autoridade do então Ministério do Interior, porque estava demorando tanto essa regulamentação e me foi respondido que era pela falta de uma estrutura para tal. Muito bem, veio uma nova Lei, agora o Ministério da Integração Nacional com uma estrutura, indo pelo mesmo caminho do passado. Chegamos a perguntar o que estamos fazendo ao silenciar perante uma estrutura com quase quatro de existência por onde passaram sei lá, cinco ou seis secretários, e o que fizemos? Nos silenciamos e aceitamos tudo como se normal fosse. Assistimos tudo calados, cometendo no meu entender um dos maires erros que se pode cometer: a omissão.
Agora chega a crise, começamos a discutir a questão entre nós mesmos, que já conhecemos a questão, começamos por ficar pasmos com as abordagens e críticas que esse subsetor da agricultura vai sofrendo. Intensificamos as discussões no nosso restríto círculo, e não levamos as discussões e o conhecimento aonde deveria chegar. Estamos num círculo vícioso.
Este fato me faz lembrar uma vez quando recebi de meu superior a missão de resolver um problema que punha em risco toda uma comunidade, depois de muito trabalho e articulações conseguimos equacionar questão. Fui informar ao meu superior a solução, ele ouviu atentamente, após o que perguntou, quem sabe dessa solução? eu respondi o senhor e o governador. Ele prontamente me respondeu: Só! então não aconteceu.
Como enfrentar essa situação que o próprio Governo contribui para o seu descrédito. Com 23 ou 24 projetos de Irrigação financiados pelo Governo Federal, para os Estados, alguns já com décadas de implantação, só dois ou três estão operando e assim mesmo precariamente. E o que estamos fazendo perante tal situação? Assistimos tudo isso calado, com obras se deteriorando, logicamente com dinheiro público sendo atirado pelo ralo, Isto é o que leva ao descrédito a agricultura irrigada, ficando vulnerável, exposta as mais variáveis e injustas críticas como perdulária dos recursos hídricos. Os projetos públicos de Irrigação federais, muitos deles com operação deficientes, para não falar da manutenção precária em praticamente todos eles. E o que estamos fazendo e nos posicionando como profissionais do Setor?
A Secretaria Nacional de Irrigação, uma estrutura do Ministério da Integração Nacional, que se analisarmos com pouco mais detalhe verificamos que está mais voltada para esses projetos públicos, basta olhar só para um item o orçamento. E para suporte da agricultura irrigada privada, como estudos básicos, reforço de infraestrura energética, entre outros o que tem sido feito? Deixo bem claro que não sou contra os projetos públicos de Irrigação, pelo contrário, fiz parte da maioria deles na Bacia do Rio São Francisco, portanto, sou testemunha do papel que representaram e representa no desenvolvimento desse vale, além de ser o berço de nossa formação profissional.
Com a falta de assistência tanto aos projetos públicos como aos privados, logicamente que a água não vem sendo utilizada adequada e eficientemente, o que coloca mais uma vez vulnerável à críticas de pessoas que tem completo ou distorcido conhecimento do setor.
Não é chegada a hora de nossas discussões, conhecimentos e posicionamentos sair desse círculo vicioso, ir para o seio da sociedade e assumir papel proativo perante o governo?
Nossa cultura tem sido reativa e tímida. A crise exige mudanças de hábitos e comportamentos.
Não é este o momento de nossa Associação se posicionar de forma competente e contundente perante o Governo e a Sociedade? Fica para os participantes deste grupo responder.






De: "Fernando Braz Tangerino Hernandez" <[email protected]>
Em: Sexta-feira, 06 de Fevereiro de 2015 19:40,
Para: "Irriga-L Irriga Grupo de Discussão em Agricultura Irrigada" <[email protected]>
Assunto: [Irriga-l] Crise hídrica
Boa tarde a todos!

Nosso Presidente da ABID, o querido Helvecio me pediu o relato e algumas informações e ainda documentos sobre esta crise hidrica que se abate sobre São Paulo. Não consegui atente-lo no tempo e prazo que ele merece, o faço agora, mas pensei oportuno compartilhar também com vocês algumas informações e pontos de vista.

Este tema insegurança hídrica preocupa a toda população e está em jogo os diferentes seguimentos da sociedade e temos trabalhado bastante em uma agenda propositiva em contraponto a encontrar um "bode expiatório" para a crise, que tem muito mais razão de ser pela instabilidade climática (periodo chuvoso atípico) e a falta de planejamento ou visão de administradores públicos nas esferas municipal, estadual e federal.

Não gosto de divulgar assuntos ou manifestações que considero inadequadas ou mal intencionadas, mas o faço agora porque penso que se agricultura e especialmente os que labutam direta ou indiretamente na agricultura irrigada ficarem assistindo sentados, é o nosso setor que perderá e muito.

Por exemplo, entendo como absurdo - para ser elegante - o artigo "Nova praga" vindo de um  engenheiro civil experiente (60 anos),  assessor da presidência do Nuclep - Nuclebrás Equipamentos Pesados S.A., empresa estatal responsável pela produção de equipamentos de grande porte e que foi subsecretário de Energia do Rio (1999-2000). Leiam e tirem suas conclusões.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/200473-nova-praga.shtml

Outras besteiras são encontradas todos os dias na imprensa.

Mas a Folha de São Paulo deu a oportunidade de colocarmos o nosso ponto de vista na matéria "Conflito das águas".
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vaivem/2015/01/1581954-conflito-das-aguas.shtml

A parte mais controversa é aquele que destaca que "Responsável por 72% do consumo de água, agricultura pode reduzir uso em 20% com boas práticas de irrigação". Pois bem, este número é oficial da ANA e vem da página 89 da Conjuntura dos Recursos Hídricos. Acesso em
http://arquivos.ana.gov.br/institucional/spr/conjuntura/PDFs%20agregados/ANA_Conjuntura_Recursos_Hidricos_Brasil_capitulos_.pdf

Felizmente encontramos jornalistas sensatos, como este artigo "Na crise hídrica, meia verdade bastou para a torneira seguir jorrando" de Matheus Pichonelli.
https://br.noticias.yahoo.com/blogs/matheus-pichonelli/na-crise-hidrica-meia-verdade-bastou-para-manter-160105504.html

Nesta agenda, na condição de professor da UNESP Ilha Solteira, Diretor da ABID - Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem e membro do Conselho do GIFC - Grupo de Irrigação e Fertirrigação em Cana temos trabalhado em conjunto com o Presidente da ABID Helvecio Mattana Saturnino e os Diretores do GIFC Patrick Francino Campos e Marco Viana, entre outros profissionais.

Penso que em relação ao uso da água devemos incorporar todos os usos consumtivos as estatistiscas, como por exemplo a geração de energia eletrica, ou retirar a a irrigação do calculo conjunto aos usos no saneamento, na industria, na desedentação animal, etc.

Para se ter uma ideia do que acontece por aqui, consumindo ou usando - como queiram - 3560 m3/s, somente a Usina Hidreletrica de Ilha Solteira tem a equivalencia em um unico dia do que usa em irrigacao em mais de 6,0 milhoes de hectares num dia com uma lamina bruta de 5,0mm. O irrigante que está montante da usina está gastando grana para ir buscar a agua (NPSH disponível, lembram????) e o irrigante a juzante da usina, nada, literalmente de braçada.

Há ineficiencias no uso da agua na agricultura, mas repudio veementemente a ideia de que os irrigantes são os vilões da crise.  Há muito o que fazer em todos os seguimentos econômicos.

Para fomentar a discussão e o convencimento, temos nos manifestado semanalmente através do Pod Irrigar - o Pod Cast da Agricultura Irrigada (http://podcast.unesp.br/podirrigar) às quintas-feiras e no Blog da Área de Hidráulica e Irrigação da UNESP Ilha Solteira (http://irrigacao.blogspot.com.br) aos domingos.

Pod Casts - http://podcast.unesp.br/podirrigar
[PodIrrigar] Engenheiro agrônomo da Unesp sinaliza os melhores sistemas e condições para aquisição dos projetos de irrigação
http://podcast.unesp.br/podirrigar-05022015-podirrigar-engenheiro-agronomo-da-unesp-sinaliza-os-melhores-sistemas-e-condicoes-para-aquisicao-dos-projetos-de-irrigacao

[PodAcqua] Irrigação mais eficiente pode dar alívio à crise
http://podcast.unesp.br/podacqua-06012015-podacqua-irrigacao-mais-eficiente-pode-dar-alivio-a-crise

[PodIrrigar] Especialista da Unesp orienta sobre o consumo e uso de água em tempos de crise hídrica
http://podcast.unesp.br/podirrigar-30012015-podirrigar-especialista-da-unesp-orienta-sobre-o-consumo-e-uso-de-agua-em-tempos-de-crise-hidrica
PodIrrigar] Crise por água e energia será resolvida no campo e agricultores possuem papel relevante no cenário
http://podcast.unesp.br/podirrigar-23012015-podirrigar-crise-por-agua-e-energia-sera-resolvida-no-campo-e-agricultores-possuem-papel-relevante-no-cenario

A cana que passa por uma crise em que a produtividade média decrescente é parte desta situação também tem sido alvo de criticas e o assédio da imprensa é grande. Aqui, duas perguntas e opiniões que compartilhamos com os colegas do IRRIGA-L.

"A cana irrigada é uma alternativa neste 2015 no qual o déficit hídrico deve continuar acentuado em várias regiões do Estado de São Paulo?" Patrick assegura que "a cana irrigada sempre será a alternativa para garantir a produtividade dos canaviais e evitar o efeito sanfona que acontece nos canaviais e em outros ramos do agronegócio, como o boi."
A queda da produtividade média da cana depende da quantidade de água que a cana recebe. Por dois anos seguidos a instabilidade e volume com que as chuvas chegaram trouxeram  problemas reais para o equilibrio financeiro das usinas. Sem produtividade elevada não há como manter o setor e a irrigação não deve ser vista apenas como a alavancagem da produtividade. Devemos olhar também para o custo de não se irrigar. Assim, acredito que São Paulo deve aproveitar a experiencia de exito obtida em outros Estados com o uso da irrigação e parar de acreditar que as chuvas virão como gostaríamos que ela viesse.
Ainda, o aumento da produtividade é fundamental para que com o aumento da biomassa produzida leve ao aumento da oferta da energia em sistema de co-geração, fundamental para a segurança energética do Brasil.

"É viável produzir cana com irrigação diante a escassez de água?"
A aceitação por parte dos controladores das usinas de quem devem priorizar seus investimentos em irrigação é o primeiro passo. Mas, mesmo quando isso acontece, não se consegue irrigar no curto prazo grandes extensões de terra dado ao volume de investimentos necessários e a divisão de prioridades. Portanto, um Plano Diretor de Irrigação deve indicar as melhores áreas a serem irrigadas levando em consideração variedades e ambientes de produção e ainda disponibilidade e qualidade da água. Marco Viana observa que "para se produzir cana irrigada devemos pensar a longo prazo, desta forma podemos fazer acumulação de água através de barramentos, por exemplo." E Helvecio Saturnino lembra da experiencia exitosa em Goiás "que para a implantação e sustentação da agricultura irrigada através de pivôs centrais, investimentos consistentes foram feitos em barragens de terra, exaustivamente discutida pela ABID e divulgada na revista ITEM - Irrigação e Tecnologia Moderna". Portanto, deve-se ter um bom planejamento para se garantir a segurança hídrica dos canaviais.

O raciocinio contido na resposta acima vale para as demais culturas.

Aproveitamos para atender o pedido do amigo Caio Vinicius Leite para a divulgação no grupo Irriga-L do video "Nota de Repúdio" no YouTube - http://youtu.be/RIyPX-dayDE

Recebam todos aquele abraço e tenham um otimo FDS, se possivel, muito chuvoso!

Fernando Tangerino

-- 
Fernando Braz Tangerino Hernandez
Área de Hidráulica e Irrigação (Hydraulics and Irrigation Division)
DEFERS - Departamento de Fitossanidade, Engenharia Rural e Solos
Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira
UNESP - Universidade Estadual Paulista (São Paulo State University)
Caixa Postal 34 (P.O. Box 34)
15.385-000  -  ILHA SOLTEIRA - SP - BRASIL
Phone: (0##18) 3743-1939 / 3743-1959
Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2
www.agr.feis.unesp.br/irrigacao.php (Institucional)
Blog: http://irrigacao.blogspot.com
http://www.feis.unesp.br/#!/departamentos/fitossanidade-engenharia-rural-e-solos/docentes/ft/ (sítio pessoal)
Academia.Edu: http://unesp.academia.edu/FernandoTangerino
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Lattes: http://lattes.cnpq.br/7276242706611764
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