Alexandre,

O que você convenientemente chama de "crise de valores" chega a ser
risível. Ser reverente, delicado, receptivo, ter gratidão, livrar-se
de preconceitos, desnudar a alma, reconhecer erros do passado, abrir
mão da estupida obtusidade heteroxa juvenil, enxergar alternativas
diferentes pra cultura, enfim, trilhar novas perspectivas
transmutou-se um desvio ético.

Quanto a Caetano e Gil...Putz...Falta-lhe mesmo conhecimento, preparo
para lidar com o assunto. A Tropicália era por si só, a mais
concessiva, condescendente e tolerante de todas as atmosferas musicais
já produzidas neste país. Muito antes do exílio, Caetano, Gil e Gal já
apostavam na singeleza, na primitividade, na pieguice bela e ubíqua de
nossa alma cultural. "Coração Materno", de Vicente Celestino, peça
obrigatória para que se conheça o que é sentimentalismo,
catastrofismo, bizarrice, cafonice mesmo, no "strictu sensu", não faz
parte do repertório de "Tropicália ou panis et circensis" por acaso. A
Tropicália foi a primeira a enxergar os valores enraizados de nossa
importantíssima e bela simploriedade, brejeirice e cafonice. O Brasil
é um país cafona, extravagante, grotesco, brega, sentimentalóide. E a
Tropicália viu isso, com muito carinho.

E para que não fiquem dúvidas sobre o que eu quero dizer, acho tudo
isso a grande fortuna de nossa herança cultural. É exatamente a nossa
opção pelo simplório, pelo sentimental, pelo barango, pela pieguice é
que produz a mais rica das culturas deste planeta.

Você citou aí Waldick Soriano. Fico pensando o que alguém feito você
sabe a respeito dele. Poucos artistas nesse país são tão vastos, tão
formidavelmente complexos feito ele. É a cara da nossa gente.
Discriminado, criativo, desprezado, sagaz, excluído, bruto e sensível
num mesmo instante, marginalizado, amado, odiado, capaz do mais
estúpido dos arroubos à mais notável das sapiências. Complexo, quase
incompreensível. Principalmente pra quem vive de conceitos prontos,
feito você.

Paulinho da Viola, por ser tolerante, consciente, contemporâneo, por
não entrar na onda estúpida do achincalhe, transformou-se, nesse seu
sofisma sórdido, em um porta-voz dessa "crise de valores" que você
criou. Se entendi bem você é um donatário incorruptível da ética, mais
consistente moralmente do que Renato Teixeira, Jorge Aragão ou
Paulinho da Viola, proprietário do inquestionável bom gosto, da mais
sublime sofisticação de paladar cultural.

"Mas, e o povo? Ora, o povo. O povo é mera massa de manobra, que cai
nas mãos gananciosas da (sempre ela!) Indústria Cultural." Êita
argumentinho surrado, sofisminha de merda, repetido aos quatro cantos.

Quem sabe a bizarrice, o catastrofismo, a pieguice, a tragicomédia
grotesca de Vicente Celestino, já endeusada e valorizada há 4 décadas
pelo Tropicalismo, possa vir aqui te ajudar a entender um pouco do que
é a cultura desse país:

"E a correr o campônio partiu
Como um raio na estrada sumiu
E sua amada quão ficou
A chorar na estrada tombou
Chega subleme o campônio
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sagrando da velha mãezinha
O pobre coração e volta a correr proclamando
Vitória, vitória tem minha paixão
Mais em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu
E a distância saltou da mão
Sobre a terra o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou
Magoou-se pobre filho meu
Vem buscar-me filho, aqui estou
Vem buscar-me que ainda sou teu!"

(Vicente Celestino - Coração Materno)

Abs,

Eugenio.


Em 19/03/08, Eugenio Raggi<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> Alexandre,
>
> O que você convenientemente chama de "crise de valores" chega a ser
> risível. Ser reverente, delicado, receptivo, ter gratidão, livrar-se
> de preconceitos, desnudar a alma, reconhecer erros do passado, abrir
> mão da estupida obtusidade heteroxa juvenil, enxergar alternativas
> diferentes pra cultura, enfim, trilhar novas perspectivas
> transmutou-se um desvio ético.
>
> Quanto a Caetano e Gil...Putz...Falta-lhe mesmo conhecimento, preparo
> para lidar com o assunto. A Tropicália era por si só, a mais
> concessiva, condescendente e tolerante de todas as atmosferas musicais
> já produzidas neste país. Muito antes do exílio, Caetano, Gil e Gal já
> apostavam na singeleza, na primitividade, na pieguice bela e ubíqua de
> nossa alma cultural. "Coração Materno", de Vicente Celestino, peça
> obrigatória para que se conheça o que é sentimentalismo,
> catastrofismo, bizarrice, cafonice mesmo, no "strictu sensu", não faz
> parte do repertório de "Tropicália ou panis et circensis" por acaso. A
> Tropicália foi a primeira a enxergar os valores enraizados de nossa
> importantíssima e bela simploriedade, brejeirice e cafonice. O Brasil
> é um país cafona, extravagante, grotesco, brega, sentimentalóide. E a
> Tropicália viu isso, com muito carinho.
>
> E para que não fiquem dúvidas sobre o que eu quero dizer, acho tudo
> isso a grande fortuna de nossa herança cultural. É exatamente a nossa
> opção pelo simplório, pelo sentimental, pelo barango, pela pieguice é
> que produz a mais rica das culturas deste planeta.
>
> Você citou aí Waldick Soriano. Fico pensando o que alguém feito você
> sabe a respeito dele. Poucos artistas nesse país são tão vastos, tão
> formidavelmente complexos feito ele. É a cara da nossa gente.
> Discriminado, criativo, desprezado, sagaz, excluído, bruto e sensível
> num mesmo instante, marginalizado, amado, odiado, capaz do mais
> estúpido dos arroubos à mais notável das sapiências. Complexo, quase
> incompreensível. Principalmente pra quem vive de conceitos prontos,
> feito você.
>
> Paulinho da Viola, por ser tolerante, consciente, contemporâneo, por
> não entrar na onda estúpida do achincalhe, transformou-se, nesse seu
> sofisma sórdido, em um porta-voz dessa "crise de valores" que você
> criou. Se entendi bem você é um donatário incorruptível da ética, mais
> consistente moralmente do que Renato Teixeira, Jorge Aragão ou
> Paulinho da Viola, proprietário do inquestionável bom gosto, da mais
> sublime sofisticação de paladar cultural.
>
> "Mas, e o povo? Ora, o povo. O povo é mera massa de manobra, que cai
> nas mãos gananciosas da (sempre ela!) Indústria Cultural." Êita
> argumentinho surrado, sofisminha de merda, repetido aos quatro cantos.
>
> Quem sabe a bizarrice, o catastrofismo, a pieguice, a tragicomédia
> grotesca de Vicente Celestino, já endeusada e valorizada há 4 décadas
> pelo Tropicalismo, possa vir aqui te ajudar a entender um pouco do que
> é a cultura desse país:
>
> "E a correr o campônio partiu
> Como um raio na estrada sumiu
> E sua amada quão ficou
> A chorar na estrada tombou
> Chega subleme o campônio
> Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
> Rasga-lhe o peito o demônio
> Tombando a velhinha aos pés do altar
> Tira do peito sagrando da velha mãezinha
> O pobre coração e volta a correr proclamando
> Vitória, vitória tem minha paixão
> Mais em meio da estrada caiu
> E na queda uma perna partiu
> E a distância saltou da mão
> Sobre a terra o pobre coração
> Nesse instante uma voz ecoou
> Magoou-se pobre filho meu
> Vem buscar-me filho, aqui estou
> Vem buscar-me que ainda sou teu!"
>
> (Vicente Celestino - Coração Materno)
>
> Abs,
>
> Eugenio.
>
>
>
> Em 18/03/08, André Carvalho<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> > assino embaixo
> >
> > On 3/18/08, Alexandre Figueiredo Pereira <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
> > >
> > > Pessoal,
> > >
> > > O grande mal dos autênticos cantores de MPB é uma certa piedade que eles
> > > têm com os aproveitadores.
> > >
> > > Quanto ao Paulinho da Viola ter elogiado É O Tchan, assim como Jorge
> > > Aragão elogiar Exaltasamba e Grupo Revelação, Renato Teixeira elogiar
> > > Chitãozinho & Xororó, etc., não significa que esses canastrões da música
> > > brega-popularesca que são elogiados tenham realmente valor. Nada disso.
> > >
> > > Infelizmente o Brasil vive uma crise de valores e vemos gente histórica
> > > cometer erros. Vide o José Dirceu, figura de prestígio do movimento
> > > estudantil, se envolver com os mensaleiros. Muitas vezes por boa-fé,
> > noutras
> > > por má-fé, o que acontece é que os grandes mestres ou líderes acabam
> > tendo
> > > algum escorregão na vida.
> > >
> > > A culpa toda está na acomodação de Caetano Veloso e Gilberto Gil quando
> > > voltaram ao Brasil, em 1972. Foi como a volta de Elvis Presley do serviço
> > > militar. De repente, aquele Tropicalismo que representava o debate vivo
> > da
> > > cultura brasileira não existia mais. Virou uma condescendência geral para
> > a
> > > cafonice, para o comercialismo, e foi aí que a música brasileira
> > > descarrilou, não por falta de bons talentos, mas porque eles foram
> > perdendo
> > > espaço ao longo dos anos.
> > >
> > > Evidentemente que tem gente que gostaria de ver a MPB transformada num
> > > grande PMDB. Sabem o PMDB de hoje? Virou a casa da mãe Joana. Entrava de
> > > comunista moderado a estelionatário, de latifundiário fantasiado de
> > > progressista a dirigente esportivo populista. E essa peemedebização da
> > MPB
> > > singifica isso: entra Waldick Soriano, entra Gretchen, entra Chitãozinho
> > &
> > > Xororó, Chiclete Com Banana, Alexandre Pires, entra Tchan, entra Créu,
> > entra
> > > Marlboro, entra até Bee Gees. E todos acendendo vela para Roberto Campos,
> > > embora se proclamem "de esquerda". Lêem a revista Veja com orgulho mas a
> > > escondem com a Caros Amigos para o pessoal não desconfiar.
> > >
> > > Quero MPB de verdade. Nem que se jogue fora 99% dessa "música de sucesso"
> > > que está aí. Quero cultura brasileira, chega de vale-tudo populista!!
> > >
> > > Abraços a todos
> > >
> > > Alexandre Figueiredo
> > > Site Ensaios Patrimoniais
> > > http://br.geocities.com/alexfig1971
> > >
> > > ------------------------------
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