É assim mesmo. Só valorizamos as coisas depois que perdemos. E no que se
trata de arte, isso é bem evidente. O tempo que passou é sempre melhor que o
presente, faz parte da natureza nostálgica do ser humano.

O que eu acho é que esse negócio de ficar comparando fulano com beltrano e
dizendo que hoje em dia não tem nenhum talento é uma tremenda baboseira.
Comparar alguém que já está eternizado pela peneira do tempo com alguém que
ainda está produzindo sua obra é injusto e sem sentido. Enquanto martelamos
no saudosismo, não abrimos espaço para os novos talentos.

É o caso do Niemeyer, que todos os arquitetos torcem para que morra logo,
pra abrir espaço pros outros. Aliás, o cara fez muita coisa de gosto
duvidoso, mas que a gente acaba engolindo só por causa de seu currículo.
Isso acontece com muitos "gênios" do passado. Já os mais novos ninguém
perdoa.

Nelson Cavaquinho já cantava:
"Me dê as flores em vida; o carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada
mais."


Aquele abraço,
Gabriel Gomes

2010/7/11 Marcos Virgílio <[email protected]>

> Vou deixar de lado a discussão futebolística: não é que não interesse ou
> esteja repreendendo ninguém, mas fiquei mais instigado com a comparação
> futebol-MPB, e a pergunta geral "há/haverá novos talentos como os que nos
> acostumamos a venerar do passado?". Como arquiteto, peço permissão para
> colocar também a arquitetura no baile, porque a pergunta também corre por
> lá: depois de Niemeyer, mais ninguém?
> Acho que o problema é de parâmetro. Enquanto Niemeyer, ou
> Chico/Caetano/Gil/Tom, ou Pelé/Garrincha forem os modelos de comparação para
> tudo de novo que surge, vai ficar difícil achar alguém. Acho sim que há
> certo saudosismo nisso (eu mesmo não escapo, porque não acho que nada em
> música popular alcance os Beatles, mas isso já é outra história).
> Esses tidos como "gênios" foram beneficiados por um conjunto de
> circunstâncias muito favoráveis que se somaram ao talento (inegável, mas
> insuficiente para explicar a projeção toda). A idéia mesmo de "gênio" é
> altamente questionável. Parece que basta a pessoa ser genial e o mundo
> inteiro se curvará à sua genialidade. Existe, porém, a questão da
> oportunidade: a pessoa estar no lugar certo no momento certo. E ter amigos.
> Porque são estes que atribuem a alguém o status de gênio. Não é o próprio.
> Se não, certamente já teríamos tido muitos outros (Arrigo Barnabé, por
> exemplo, continua achando que é um gênio acima dos mortais).
> Ninguém nunca achou estranho que todos esses "gênios" frequentavam os
> mesmos circuitos, conheciam-se uns aos outros (isso quando não eram amigos
> íntimos), etc? Não é muita coincidência que todos esses gênios tenham se
> juntado num mesmo lugar ao mesmo tempo?
> Engraçado é que essa "nostalgia" já vem sendo notada e criticada há muito
> tempo: ainda nos anos 70 tinha um Raul Seixas cantando "eu não nego que a
> poesia dos 50 é bonita, mas todo sentimento dos 70 onde é que fica?", ou
> ainda o Belchior sentenciando "nossos ídolos ainda são os mesmos e as
> aparências não enganam não, você diz que depois deles não apareceu mais
> ninguém". Será que mais uma vez é a gente "que ama o passado e que não vê
> que o novo sempre vem"?
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