E aí Paulo,
Justamente, os tempos estão mudando. A maneira como o artista e o público lidam
com o áudio está sendo transformada (eu arriscaria até a fazer uma analogia com
a revolução que a TV provocou frente a era do rádio).
Na minha opinião o que vai acontecer é justamente isso mesmo.
O CD vai virar uma peça de luxo (como já está virando).
Com acabamento de luxo, preços altos e edições limitadas para que sejam
colecionados. Virem objetos de desejo, status mesmo.
O "pobre" baixa na internet, e o cara que tem grana, "ostenta" sua
caríssima coleção de CDs.
Nada contra nenhum dos dois perfis. Até poque são estereótipos (Hoje! Amanhã
talvez sejam realidade...), e porque eu me enquadro nos dois, as vezes compro
original, as vezes compro piratão, as vezes baixo na internet...
Como artista autoral, penso como você: meu trabalho tem que criar asas e voar
mundo afora, e atrair a atenção do contratante que vai me dar o "faz-me-rir".
Já como músico contratado, prefiro cair em alguma gravação de CD (sabe como é,
estar ajudando os amigos de graça no trabalho autoral deles é massa por que a
gente reafirma a amizade e pode até cobrar mais na frente que ele faça o mesmo,
numa cooperativa fraterna interminável, porém... $$$ compra o pão né?)
Não se preocupe, estamos no mesmo patamar: ganhamos por show.
Porém, é importante os músicos terem consciência de que o mercado de trabalho
não é só show. Tem o músico de estúdio, o músico de orquestra, o professor de
música, o produtor musical, o musicoterapeuta, etc e tal...
Na verdade, o show biz é só a ponta do Iceberg. Tá diz aí, quantos colegas não
tem uma segunda profissão que banca o dia-a-dia? Quantos professores de música
já não "aconselharam" seus alunos a fazerem faculdade de outra área
pra terem a tranquilidade de se dedicar a musica como um hobby?
O cara que vive de música, (vive mesmo: chega de carro zero no estúdio, tem um
padrão de vida razoável, paga suas contas em dia, etc... - sem a ajuda da
família, claro!), não é só um artista no sentido de "profissional da
arte", é um cara que é um excelente profissional, estudou pra cacete, é
polivalente, estudou outras áreas que fazem parte do universo artístico, como
aúdio profissional, pedagogia musical, gerenciamento de eventos, administração,
etc, etc...
Por exemplo: Nem todo percussionista, ganha 5 mil/show no carnaval da Bahia.
Alguns ganham, é verdade. Mas a grande maioria
tá lá no patamar dos 30 reais/cachê de boteco. Pro trabalhador que vai tomar
sua cerveja e escutar um pagode, tá de bom tamanho o "couvert" de 2,00. Mas pro
músico que vai receber uma porcentagem daquilo (muitas vezes pra comprar comida
pra família). É foda, bicho! Isso não é pagamento digno a nenhum profissional.
Mas tem neguinho que vive disso. E aí? Como é que fica? Vai virar dono de bar e
pagar mixaria pros músicos que tão começando também? E o interessante, é que
nesse caso. O próprio músico, muitas vezes não sabe como transpor esse abismo
imensurável que separa o cachê de boteco pro cachê de estrela do carnaval da
bahia.
Só estudar? Não, tem toda uma via-crucis. Fora as situações profissionais
mesquinhas que dão espaço a um cara que não sabe nada, só porque é
"amigo-de-fulano" e na vera mesmo: necas! Némolenãomermão...
A profissionalização efetiva do músico, tornando ele um profissional competente
e preparado para o mercado de trabalho, é um processo que está em evolução.
Se vc faz faculdade de música hoje, na grande maioria dos cursos vc só estuda
música erudita. E a música popular? Eu mesmo só conheço o curso de MPB da
Unirio...
Ou seja, o músico hoje, carece de um mercado de trabalho estruturado, que dê a
ele opções de trabalho ao invés de restrições de trabalho; carece de escolas
profissionalizantes de música que o preparem para o mercado em geral
(principalmente ensinando a ele matérias que o façam se virar quando a vaca for
pro brejo, e ele se ver na pior, como um empreendedorismo ou um marketing
pessoal, por exemplo...), isso sem falar num sindicato de verdade e de um
conselho regional da sua profissão, que cumpra o seu papel
(Não vamos desistir de mudar a OMB, ela também é uma engrenagem importante
nesse processo todo!!!)
E é nesse ponto que eu pego um gancho pra voltar a falar do assunto tema dessa
argumentação: a pirataria.
Como ser a favor, se sou o principal prejudicado? Como ser contra, se sou o
principal beneficiado?
Ou seja: existe uma terceira opção, ainda desconhecida. Que é a realidade para
qual o mundo atual está caminhando e que ainda não conhecemos bem, pois ela
está se equilibrando daqui, se esticando de lá. Enfim! Está em transformação.
Em relação a essa afirmação sua, da indústria não estar interessada em
incentivar a criação, o lado cultural, e sim somente o lucro, sei não viu?
Os caras estão desesperados atra´s de um midas perdido na multidão que venda
milhões. Estão até apelando para programa como o "Astros", em que pegam quatro
produtores pra virarem jurado de auditório de bizarrices tremendas (tá bom, tá
bom, até música instrumental já apareceu por lá e os caras incentivaram aos
instrumentistas que levem trabalhos pra eles).
Na minha opinião, e sei que muita gente vai concordar comigo, essa não é de
longe, a melhor maneira de incentivar arte nenhuma, mas é uma delas...
E como está explícito, os caras naõ tem idéias melhor pra colocar em prática.
Sinal de que o próprio mercado fonográfico brasileiro, reflexo de um mercado
mundial, está saturado e estagnado, carente de uma boa oxigenação.
Desconhecendo como transformar em sucesso de mercado (não precisa ser
mal-humorado e entender sucesso de mercado como um pop-star, Yamandu Costa e
Hamilton de Hollanda também são sucesso de mercado), o riquíssimo potencial
cultural brasileiro.
Resumindo: os caras são burros Paulo. Não mesquinhos.
Concordo com o que vc diz sobre difusão cultural e acessibilidade
universal do patrimônio intelectual na web. Isso é inegável.
Porém antes de chegar na mão do público, o produto cultural (composto por
um patrimônio intelectual), precisa ser concebido. Precisa ser planejado.
Ou muitas vezes, precisa ser simplesmente regurgitado numa inspiração
genial do artista, que depois o lapida com todo o zelo do mundo. Mas esse
processo pertence ao artista que o cria. Como ele vai soltar seu filho
no mundo, também é decisão dele. Claro! é uma via de duas mãos. o
público está na outra ponta da balança, aprovando ou não, e sendo assim,
não tem como excluí-lo desse processo.
Já ouvi casos de artistas que gravaram propositadamente pouquíssimos e
caríssimos CDs. Com que objetivo: virar artigo de luxo, status...
Babaquice?
Pode ser, mas é a estratégia de ação do cara, fazer o quê? Uma coisa é certa, o
público alvo dele vai comprar. No outro extremo, temos grupos como o Olodum,
por exemplo, que ja´ anunciaram que não vão mais vender CDs. net na cabeça!
Concordo com vc em gênero, número, grau e pensamento:
"Quem faz o produto é o cliente"
No assunto "discos raros", não tem nem o que dizer né? Tá óbvio o benefício da
coisa.
No assunto "lógica de mercado" é isso mesmo.
A roda gira e no fundo vc só escolhe se vai fazer ela girar ou se vai ficar em
baixo dela pra ser esmagado... Ditaduras de mercado, assim como qualquer
ditadura, são um atraso na humanidade, e com o tempo, são expontaneamente
extintas (mesmo que algumas teimem um pouquinho)
Em relação ao trabalho (pagodão/choro). Negão! Sou um profissional.
Não tenho gosto musical. Pagou melhor eu toco. Qual é o advogado aqui da lista
que vai me criticar? E olha que eu não estou defendendo nenhum criminoso
culpado! O dia que eu puder negar trabalho, me dedicar EXCLUSIVAMENTE
a música que eu curto de verdade, e transformar ela no meu ganha-pão, não tenha
dúvidas que isso será feito. ´Não é esse o sonho de todo profissional liberal?
Ter o consultório cheio e parar de dar plantão sábado a noite na véspera
de Natal? Viver dando palestras caríssimas que pagam suas contas por 6 meses?
Então? Agora é ingenuidade, pra não dizer preconceito mesmo, querer fazer juízo
de valor quanto ao profissional que toca o Créu da vez comparado ao
maestro da sinfônica do interior do estado.
Quem aqui, conhece um grupo de pagode baiano chamado Psirico?
Pois bem, o líder do Psirico, Márcio Victor, é um dos percussionistas mais
respeitados do Brasil. Um dos dois únicos baianos que tocou percussão com João
Gilberto (o outro é Brown). Márcio, já tocou com nomes como Caetano, Marisa
Monte, João Bosco, etc... É respeitado por caras como Naná
Vasconcellos. Tem uma das inteligências musicais mais avançadas que eu
conheço, no que se refere a percussão. Mesmo assim, ele tem bem nítido na
cabeça dele, o que é música comercial de massa (que ele faz com o Psirico), e a
música que ele gosta de tocar (que ele sabe que não vende como a outra).
Isso quer dizer, que ele vai largar a música "de qualidade" (se é que se
pode usar um termo tão pejorativo quanto esse em uma cultura miscigenada
e cheia de opiniões como a brasileira)? Não, não vai. O que não falta
são projetos de registro e catalogação de ritmos do candomblé. Apoio a
projetos sócio-culturais principalmente na formação de novos músicos
capitaneadas por Márcio Victor.
Fora a percussão que ele faz não-comercial (porque não comercial?), genial, que
volta e meia é contratada por um Caetano da vida.
Agora eu pergunto:
E se ele parar a banda de micareta? Param todas as engrenagens.
Isso pra não falar de Carlinhos Brown, que hoje em dia é referência em formação
de patrimônio cultural, com todos os seus negócios (Entre eles a
Associação Escola de Música Pracatum) que somam milhões.
Mas como essa é uma esfera em um nível maior, não vou entrar nela.
Em relação a afirmação de que, depois que o produto caiu na mão do consumidor
ele faz o que bem entende. Não vou entrar nisso. Não quero entrar nisso. Não
tenho muito saco pra isso.
Direitos Autorais é uma das áreas mais complexas do direito.
Que dirá nos dias de hoje, com a globalização.
Por um lado, o consumidor pagou, sendo assim o produto é seu e ele faz o que
quiser (até tacar fogo, se quiser). Por outro, tem o patrimônio imaterial.
Que está além do objetozinho palpável. O cara na verdade, pagou o direito de
escutar no som dele. Pra divulgar pros outros não.
Não estou concordando com isso. Muito menos defendendo.
Mas todo mundo sabe que a lei é assim. O que tem que ser mudado é a lei.
E como ela reflete o pensamento coletivo de toda uma sociedade.
A sociedade tem que amadurecer essa idéia.
Debater.
Como nós estamos fazendo.
Agora, o ideal seria que as pessoas debatessem, sem puxar a brasa pra sua
sardinha. E sim analisando a situação como um todo. Em que existem vários lados
lesados e beneficiados, e que o que deve ser amadurecido e desenvolvido, é um
mecanismo que não prejudique ninguém.
ô equaçãozinha miserarver...
P.S. Vamso deixar a propagando do blog de fora desse debate que é
melhor...
Enorme abraço, Paulo
saúde e paz a todos da tribuna!
Marcelo Neder
Fala, Marcelo!
Sei bem das questões e condições de gravação de álbuns, pois estou envolvido
agora em dois projetos, um autoral e outro como músico contratado.
Reconheço que existe todo um organismo vivo atrás do finalizado, editado e
lançado CD.
Mas engraçado que fui esses dias a uma organização de músicos, ligados a uma
grande rede e burocracias goveramentais, onde estava falando do apoio que
receberia para lançar um dos trabalhos - que é o meu autoral, que até
cheguei a comentar aqui já - e eles disseram, esqueça de ganhar grana com venda
de CD e gravadora e tal... pensa nesse processo como uma grande divulgação do
seu trabalho...
Concordemos que divulgação por divulgação, todos podemos, fazer, Lógico que uma
gravadora atinge mercados precisos, existe a movimentação financeira de
encargos e afins, que é algo muito mais profissional que um blog, sem
desmerecer de forma alguma o blog. Mas se já não vou ganhar com a venda do
CD, quero mais que todo o divulguem, quero que todos tenham acesso a ele, não
só o cara que pode pagar R$ 15,00 a R$ 20,00 no CD, mas aquele que passou
na rua e viu no camelô uma capinha e tal, achou interessante e levou o meu
trabalho. Quero que um cara na Nova Zelândia escute o meu som, via rede, via
net, e me chame para fazer um som, na esquina da casa dele. Você como músico
sabe muito bem, que ganhamos por show. Pelo menos ainda estou nesse patamar.
Com o meu trabalho de compositor vou ganhar mais de outra forma.
Nessa onda de o famoso é o prato cheio, não havendo uma política decente de
incentivo à arte por essas empresas, que só querem o selinho do governo para
ter benefícios fiscais e tal, e o artista menos conhecido ou novato ficando no
limbo, é que temos os grandes congelamentos no processo criacional, vide
matéria com o Chuck Berry, outra área musical, não sendo samba, dizendo que não
cria mais nada, pois sabe que só querem o Jonnhy B. Good, ou seja o cara não
cria nada desde sei lá, disse ele que desde 70 e pouco, não me lembro agora. Se
a indústria estivesse, de fato, interessada em não só ter lucro, mas incentivar
criação, incentivar o lado cultural, daí eu concordaria com você 100% nos teus
argumentos, Marcelo.
Outra coisa, você não acha que é justíssimo a DIFUSÃO CULTURAL e os padrões de
ACESSIBILIDADE UNIVERSAL do patrimônio intelectal que ocorre na net? E é aí que
quem deve decidir é o público. Quero disponibilizar na rede algo que é bom...
para que todos o possam ter acesso.
Existe também, o seguinte lance, o público às vezes está interessado na
concepção de álbum do artista, então faz uma economia e compra o CD na loja; às
vezes quer só o conteúdo sonoro, então baixa da net... Complicado é, ainda
hoje, NÃO entendermos que, em termos comerciais, "quem faz o produto é o
cliente".
E outra, colecionadores de discos, que não acham aquele saudoso disco do
Jorginho do Império (o Peçanha), não consigam o disco, mas consigam o registro
sonoro virtual para compilar de repente em seu repertório musical, par aum
próximo trabalho, aumetando a procura pelo nome citado pelos
consumidores e forçando empresas a reeditarem material e mais material.
Saca o movimento comercial de hoje? Cliente manda, empresa faz... Já se foi em
algumas empresas, graças a Deus a realidade do Henry Ford (todos podem ter um
Ford da cor que quiser, contanto que seja preto) Chega de ditaduras, né.
Com questão ao trabalho, via da escolha da pessoa, conheço muitas pessoas que
deixaram o "pagodão" que paga 5000 para montar uma resistÊncia cultural do
choro que paga 10... é complicado, né? Mas existme pessoas assim. Guerreiras,
mas não julgo mal a atitude de tocar o "pagodão" que paga 5000 não! É mercado
de trabalho, e quem faz isso TAMBÈM está corretíssimo.
concorco 100% quanto a escolha do artista sobre como será sua atuação de
distribuição, mas volto a dizer, depois que o produto caiu na mão do consumidor
ele faz o que bem entende... entende esse ponto também?
quanto as propagandas, banners, full baners dos sites, é o negócio que
comentamos desde o início do papo, MONEY MAKES MONEY (sou péssimo em inglês,
está certo isso?), ou seja, insumo gerando insumo... dinheiro gerando dinheiro.
Aí, podemos cair num outro papo, o modo como publicar isso na net!
Mas acho que já é um outro papo! rs...
Grande abraço, Marcelo. bom papo!
saúde e paz a todos da tribuna!
Paulo Serau
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