Em qui 23 jul 2015, às 17:57:45, Marcos Pitanga escreveu:

> Porque nem tudo dentro de software livre consegue alcançar o nível de
> negócio exigido pelas corporações.

Eu já não concordo com essa afirmativa. No mínimo, isso não é o que acontece no 
serviço público. No máximo, acho que é uma visão um pouco pessimista. Explico 
mais adiante.

> As vezes aquele algo mais falta na hora de prover um TCO consistente. Porque
> às vezes, um CEO/CIO não consegue enxergar valor agregado em um determinado
> software livre para sua companhia.

Isso não parece um problema intrínseco, apenas um problema de falta de 
conhecimento da empresa ou das "consultorias" contratadas.

> Usar o discurso que é de graça ( que na verdade não é ) não convence mais.
> Tem que mostrar valor ao negócio do cliente e não simplesmente dizer porque
> é SL.

De novo, aqui acho que as prioridades estão trocadas. É claro que uma empresa 
tem que procurar o que vai dar valor ou retorno. Mas não é nem papel, nem 
obrigação, nem mesmo objetivo dos desenvolvedores ou do ecossistema de 
software livre providenciar isso. E isso acaba sendo bom, pois é uma 
oportunidade para quem quiser ganhar dinheiro com software livre prover esses 
valores para as empresas.

Um exemplo que tenho sou eu mesmo. fui durante 15 anos dono de uma empresa de 
consultoria em TI (não sou mais). Nos últimos 10 anos da empresa descobrimos 
que podíamos usar software livre diretamente no nosso negócio: desenvolvimento 
de sistemas sob encomenda. Em 100% dos casos em que explicávamos para os 
nossos clientes que teria software livre envolvido, eles ou não tinham nada 
contra ou até gostavam, pois diminuiria o tempo e o preço para colocar as 
coisas em produção.

Mas o diferencial está aqui: a estimativa é a de que 90% (segundo a FSF) de 
todo o trabalho remunerado de programação no mundo seja relacionado a software 
sob encomenda para empresas. Do ponto de vista de quem contrata, tanto faz se 
está sendo usado ou não software livre, pois o sistema não será vendido, será 
apenas usado internamente. O que interessa é se funciona, qual o prazo para 
novos releases/manutenções e os custos. Dados esses critérios, quanto mais 
software livre estiver envolvido, melhor ainda, pois acelera o desenvolvimento 
(não é preciso reinventar a roda), acelera os novos releases (atualizações de 
bibliotecas livres) e diminui os preços.

De qualquer forma, isso é apenas um dos usos e de formas de transformar 
software livre em ganha-pão.

Uma forma mais fácil e direta é se tornar especialista em escolher sistemas 
adequados e prontos, instalá-los, configurá-los e manter o ambiente funcionando 
bem.

> Grandes empresas investem no SL e esperam tirar proveito dele para alavancar
> negócios e retornando à comunidade alguns benefícios ao código.

Talvez sim. Mas eu diria que não é o nicho onde está realmente o filé, nem é 
onde existe mais mercado comercial.

> Nem tudo é lobby, porque nem todo SL contempla as exigências da demanda
> requerida pelas companhias.

Claro. Nem toda a demanda de uma empresa vai encontrar algo prontinho em 
software livre. Mas, de novo, a comunidade de software livre deve ver isso 
como uma vantagem. Sempre que há uma lacuna, pode-se tentar completá-la. Um 
exemplo: uma empresa precisa de uma solução de telefonia voip que tenha 
dezenas de requisitos. O profissional de software livre escolhe um software, 
por exemplo FreeSwitch. Vê que o software não atende todos os requisitos e 
então faz uma proposta de implementar os módulos que faltam e fazer a 
integração do FreeSwitch com os módulos da empresa por um valor e prazo 
infinitamente melhores que o vendedor da versão multinacional proprietária.

> 
> O openStack é um exemplo que posso dar. Clientes grandes ficam muito
> temerosos porque sentem na pela alguns problemas sérios tais como a
> dificuldade em migrar para uma versão nova sem ter parada do ambiente, da
> dificuldade em receber suporte necessário 24x7, de faltar código necessário
> para resolver algumas demandas, etc...

Minha experiência é o inverso disso. Alguns clientes que eu já tive já ficaram 
na mão justamente de duas das maiores gigantes da informática e de seus 
produtos proprietários, apesar de terem contratado o nível de suporte mais 
caro disponível. E devido aos fóruns serem bloqueados para quem tivesse os 
pacotes mais caros de suporte, não havia muita gente por lá da comunidade para 
dar palpites e tentar achar soluções de contorno. A reposta oficial das duas 
gigantes? "Esperem sair a próxima versão no terceiro ou quarto quartil do ano 
que vem".

No caso de software livre, logo nos dois primeiros projetos, entramos em 
contato com os desenvolvedores por causa de alguns problemas e dúvidas que 
tínhamos encontrado na camada de persistência do servidor de aplicação e em um 
banco de dados orientado a objetos. Para a minha surpresa, nos dois casos os 
caras *agradeceram* pelo Test Case que nós enviamos e fizeram uma correção *no 
mesmo dia*.

> E, nem tudo é tratado no nível técnico existem muitas coisas que o pessoal
> de SL não consegue fazer no âmbito do negócio porque simplesmente não
> entendem do negócio.

Sim. Cada macaco no seu galho. O ecossistema de software livre permite o 
surgimento de consultorias especializadas em dar esse tipo de norte.

> Quanto a usar SL para amparar a base da sociedade concordo plenamente que
> tem que ser por aí.
;-)

Para concluir, outra possibilidade muito grande disponível para o poder 
público tem a ver com tudo isso que eu falei da esfera privada.

Apenas para dar alguns números, um certo órgão público que conheço acabou de 
gastar pouco mais do que R$ 11 milhões em licenças de produtos de escritório 
de uma empresa. A justificativa oficial era a de que já tinham alguns produtos 
e 
os novos tinham que ter integração (a qual não existe totalmente mesmo depois 
dos R$ 11mi, diga-se de passagem).

Imaginem se, ao invés disso, o órgão fizesse uma licitação assim:

1) Queremos produtos de escritório que permitam: editar textos, planilhas, 
apresentações, emails, etc.
2) Os produtos tem que ser acessados e acessar nossas bases de usuários XYZ
3) A licitante vencedora terá o prazo de 6 meses para implantar o primeiro 
módulo de integração e 1 ano para todos os módulos estarem integrados.
4) Todos os sistemas fornecidos ou desenvolvidos deverão ter uma (ou mais) 
licença de software livre reconhecidas (anexo com as licenças aceitáveis).
5) A licitante melhor colocada terá que demonstrar sua  capacidade técnica 
implementando o módulo piloto XYZ dentro de 90 dias. Caso bem sucedida, será a 
vencedora do pregão. Caso contrário, será desclassificada e a próxima licitante 
será convocada.

É possível que aparecem diversas empresas e os valores se tornassem uma fração 
dos R$ 11 mi...Esse dinheiro iria gerar não apenas renda para empresas 
(possivelmente) locais. Mas também despertaria a vontade de outras pessoas e 
empresas investirem em cursos e atividades relacionadas a software livre, na 
expectativa de poderem participar de novas licitações desse tipo...


[-o-]
Luís Soeiro







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